Terça-feira, Novembro 10

Quem é puta?

O crime da puta é praticar ato obsceno em troca de dinheiro. Ponto. O senso comum atribui à prostituta, e apenas a ela, a pecha de puta.
Mas se ampliarmos um pouquinho o conceito de prostituição, muitos homens e mulheres de família, que conduzem sua existenciazinha pautados em ideais pequeno-burgueses e constrangedoramente conservadores farão companhia às putas.
Prostituem-se as esposinhas e maridinhos presos a casamentos em que as relações sexuais mais parecem estupros, mas que são capazes de tudo suportar para enquadrar-se naquilo que a tradicional família brasileira deles espera.
Prostituem-se pais e mães cegos que deixam que suas filhas e filhos sejam assediadas e abusadas por madrastas, padrastos e amantes de ocasião.
Prostituem-se os seduzidos pelo desejo do poder. Vendem a si mesmos e entregam os outros em troca de benesses e privilégios de diversas categorias.
Prostitui-se quem faz o que não quer, vai onde não deseja, elogia o que não aprecia e sorri pra quem não gosta por puro medo.
Prostitui seus olhos quem opta por não ver nada ao seu redor além do próprio interesse. Prostitui sua boca quem fala o que não vive e o que não crê. Prostituem-se os sentidos todos, quando a doce recompensa da corrupção é tão saborosa que embota qualquer consciência.
Prostitui-se quem abafa a própria percepção “para não sofrer” e não sofrendo, acede àquilo que contraria seus princípios.
Prostituem-se os aqueles trocam o reconhecimento da dignidade humana pela classificação estética, enquadrando o mundo em seu raciocínio tacanho: bonito-feio; fashion-brega; magro-gordo e outros antagonismos simplistas e preconceituosos.
Prostitui-se quem abraça moral e renuncia à ética por pura de preguiça de refletir.
Prostitui-se quem prefere não enxergar, simplesmente para não sofrer.
Vendidos e vendidas deste século, incapazes de se indignar com a injustiça, indiferentes à verdade, nada sofrem, pois estão no mundo apenas para serem felizes.
Prostitui-se quem não tolera, organiza o mundo em puro-impuro, santo-pecador, bonito-feio, adequado-inadequado, demarcando territórios e limites, matando a liberdade.
Prostitui-se quem pune, sem qualquer lembrança de sua tarefa de educar.
Se supusermos que a Uniban houvera sido alguma vez uma instituição de Educação, não temo afirmar: prostituiu-se.

Para finalizar o verbete do Dicionário Aulete Digital:
2. Fig. Tornar(-se) degradante, devasso; CONSPURCAR(-SE); CORROMPER(-SE). Ex.: O desejo de poder prostitui os homens.

Segunda-feira, Outubro 26

Voar

Na história da animação UP (Pixar) há um momento em que Carl Frederichsen tem poucos balões para voar e precisa alçar vôo para ajudar seu novo amigo, o menino Russel.
É nesse momento que uma dos momentos mais sublimes da história ocorre. O velho Carl - para tornar a casa leve o suficiente para voar - deixa ali tudo que estava dentro da casa: móveis, quinquilharias, as mais caras recordações, tudo enfim. A casa voa.
Andei fazendo as contas dos balões que ainda me restam.
Ainda preciso me desfazer de muitas, muitas coisas.

Quarta-feira, Outubro 14

Lembram do tempo do LP?


Eu lembro. Eram caros, vinham em capas com lindos projetos gráficos e, sobretudo, eram simbólicos, materializando nossa devoção por artistas ou gêneros musicais. Lembro-me como hoje que meu primeiro LP – aquele que eu juntei grana da mesada e da condução para comprar - foi o Folia (1981). Custou vinte e cinco cruzeiros.
Levei-o para casa como um tesouro e o ouvi naquela vitrolinha sem-vergonha que tínhamos quando morávamos na casa da rua Marechal Deodoro (em Aracaju). Ouvi, ouvi, ouvi, com o encarte nas mãos até perceber cada detalhe, cada instrumento, as terças, quintas, diminutas ou aumentadas dissonâncias dos arranjos de voz.
Ouvir Mistérios (Joyce/Maurício Maestro) foi um verdadeiro arrebatamento.
O passo seguinte era telefonar para as amigas, contar a novidade, dizer que o disco é lindo e convidá-las para ir até em casa para partilhar este momento de pura magia.
Foi o Boca Livre (com a formação Zé Renato, Lourenço Baeta, Maurício Maestro e Davi Tigel) que me ensinou a pensar “harmonicamente” uma melodia, o que me garantiu boas aventuras como arranjadora “de ouvido” nos corais e grupos dos quais participei, além de alguma capacidade de improvisação.
Pois é. Hoje enfiamos aquela coisa nojenta na orelha e saímos por aí, ouvindo egoísticamente sozinhos e absortos as músicas que dizemos amar. Sem partilha, sem comunhão, sem a transcendência daquela maravilhosa eucaristia musical.
Fazeroquê? Ando querendo mesmo comprar um iPod.

Terça-feira, Outubro 13

Realidade

Sonho que se sonha só é somente sonho que se sonha só.
Sonho que se sonha junto é realidade" (Raul Seixas)

É neste modelo de educação que eu acredito.
Este homem, para mim, é irmão, profeta e poeta.
Ave, Tião Rocha!



Terça-feira, Outubro 6

Todo cambia


Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente


Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Ao longo dos últimos 5 anos venho sendo obrigada, vez por outra, a celebrar lutos.

Foi assim quando assisti o filme “Adeus, Lênin” e ao canadense “As invasões bárbaras”. Como eu, os protagonistas se viram diante de uma onda irreversível de mudanças que estavam muito além do nosso modelo mental ou flexibilidade. No meio desse processo, tínhamos que continuar fazendo valer nossos valores de partilha, solidariedade, vida comunitária, respeito, acolhimento das diferenças e dos diferentes, mesmo em face da intolerância avassaladora dos neo-liberais, neo-pentecostais, neo-cafajestais e até do Neo do Matrix.

Mas a dor não vem da necessidade de adaptação ou reposicionamento em si. A dor vem da perda do que havia de mais precioso para o nosso conjunto de crenças e valores: aquilo e aqueles que os materializava.

É doloroso ter que admitir que a utopia há muito agoniza, sufocada pelo individualismo de modalidade “sobrevivência”, a abertura política fez brochar a verve crítica de músicos, poetas, intérpretes e dramaturgos, ser de esquerda é ser retrógrado, ser engajado é agora fetiche de gente que se diz “verde” e passa horas no shopping consumindo artigos exclusivos concebidos para a composição de um visual pseudo-despojado.

E como se não bastasse tudo isso, fui obrigada a descobrir que a Mercedes Sosa é mortal.


De fato, todo cambia.